Relatório sobre incêndio em Hong Kong mostra como uma proposta barata de consultoria abriu caminho para suposta fraude em licitações
A investigação do incêndio no Wang Fuk Court, que matou 168 pessoas, liga um suposto esquema de conluio à consultoria: a Will Power Architects ganhou o contrato com uma proposta de HK$220.000, contra um valor de mercado perto de HK$500.000, e depois deu nota máxima em segurança à construtora Prestige apesar de condenações anteriores, informou a Reuters.
A Reuters analisou o relatório da comissão independente, divulgado em 29 de outubro, e contou mais de 40 menções às tríades, os grupos do crime organizado de Hong Kong. A reforma do conjunto habitacional subsidiado pelo governo em Tai Po passou de uma estimativa inicial de HK$152 milhões para mais de HK$330 milhões. O relatório não diz se as duas empresas têm ligação com tríades.
Segundo o relatório, o suposto esquema começou pelo controle da consultoria, a empresa que os proprietários contratam para ajudar a escolher a construtora. A Will Power Architects ficou com essa função por HK$220.000 (US$28.000), bem abaixo dos cerca de HK$500.000 que o serviço costuma custar. Suas avaliações das propostas deram à construtora principal, a Prestige Construction, nota máxima em cumprimento das normas de segurança, embora a empresa tivesse condenações anteriores. A comissão também concluiu que a Will Power não fiscalizou a Prestige de forma independente e aprovou placas de espuma inflamáveis e telas de andaime sem retardante de chamas, segundo um resumo das conclusões feito pela Reuters.
As autoridades apresentaram pelo menos 25 acusações criminais ligadas ao Wang Fuk Court contra a Prestige, a Will Power e sete pessoas. As acusações ainda não foram provadas, e a Reuters não conseguiu contato com as empresas. O governo quer tornar crime o conluio em licitações de reforma de prédios, com pena de até 10 anos de prisão e multa de HK$10 milhões (US$1,3 milhão). Também prevê uma força-tarefa conjunta da polícia, da Comissão Independente Contra a Corrupção e da Comissão da Concorrência, além de um novo órgão para supervisionar obras de reforma.
Advogados e policiais disseram à Reuters que o novo crime só vai funcionar se os investigadores conseguirem provas concretas, porque o conluio muitas vezes não deixa pagamentos nem rastro em papel. Tommy Leung, professor associado da Wake Forest University, disse que sua pesquisa mostra que os preços de reforma subiram cerca de 40% depois que Hong Kong começou, em 2012, a subsidiar reparos obrigatórios em prédios com mais de 30 anos.
Por que importa: Se a associação de proprietários contrata uma consultoria para conduzir a sua licitação, veja quanto ela cobrou e quem montou a planilha de pontuação. Honorário muito abaixo do mercado e nota de segurança perfeita para uma construtora com condenações: as duas coisas apareceram no Wang Fuk Court.
Fontes
- Who Was to Blame for Hong Kong's Deadly 2025 Fire?Insurance Journal (Reuters), 29 de out.
- Hong Kong fire exposes entrenched triad networks in building renovation industryReuters (via 93.3 The Drive), 30 de out.